Bancários do ABC

Sindicato aponta 20 agências bancárias fechadas no ABC em 2025 com digitalização

Santander foi o banco que mais fechou agências na região em 2025

Santander foi o banco que mais fechou agências na região em 2025

A rede bancária do ABC encolhe em ritmo acelerado. Para se ter ideia, somente em 2025, cerca de 20 agências foram fechadas na região, segundo levantamento do Sindicato dos Bancários do ABC. O movimento, puxado principalmente pelo Santander, acompanha tendência nacional de migração para o atendimento digital, mas deixa para trás moradores que ainda dependem do serviço presencial, especialmente os idosos e clientes com baixo acesso à tecnologia.

O fechamento de agências, no entanto, não é uma particularidade regional. A Pesquisa de Tecnologia Bancária da Febraban mostra que a digitalização já domina o comportamento dos clientes no País. Mais de 80% das transações hoje ocorrem por meio de canais digitais, como aplicativos e internet banking, enquanto o volume de operações nas agências físicas cai ano após ano. Para os bancos, manter unidades tradicionais implica custos elevados de operação, segurança, abastecimento de caixas e equipes, estrutura que, segundo especialistas, se torna cada vez menos compatível com o ritmo da adesão tecnológica.

Essa lógica é citada também pelo presidente do Sindicato dos Bancários do ABC, Gheorge Vitti, que acompanha de perto o encurtamento da rede. Em entrevista ao RD, o sindicalista explica que os bancos têm trabalhado com um índice mínimo de eficiência para manter agências abertas. “É uma conta dura. Se a agência não atinge determinado percentual, cerca de 3 ou 4%  acima da Selic, não vale a pena, do ponto de vista deles. A rede física ficou cara, e a digitalização acelera esse processo”, afirma.

Santander lidera fechamentos e pressiona atendimento 

Entre os fechamentos registrados neste ano, o Santander desponta como o banco que mais encerrou unidades no ABC. Em algumas cidades, o impacto foi imediato. Em Ribeirão Pires, o encerramento da única agência no município gerou frustração nos clientes que dependiam de atendimento presencial, o que obrigou moradores a se deslocarem para Mauá, onde o sindicato relata já existir sobrecarga de atendimento, com filas gigantes e dificuldade para absorver toda demanda.

O anúncio do fechamento da unidade, a partir de 5 de dezembro, ocorreu poucos dias após um ato nacional de protesto contra o Santander, organizado por entidades sindicais. Para o diretor sindical Ageu Moreira, o fechamento é mais um capítulo de um processo de precarização. “O Santander opera no Brasil como serviço essencial, mas tem precarizado o ambiente de trabalho, as contratações e o atendimento à sociedade. Fechar a agência de Ribeirão Pires é descaso com os brasileiros”, afirma.

A decisão chama atenção também porque vem em um momento de forte resultado financeiro. A holding obteve lucro líquido de R$ 11,53 bilhões no Brasil nos nove primeiros meses de 2025, crescimento de 15,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, entre junho de 2024 e junho de 2025, o banco fechou 558 agências no País e eliminou 3.288 postos de trabalho, sendo 2.171 apenas no terceiro trimestre de 2025.

Vitti conta que o fechamento de agências não se limita a bancos privados. “Não é uma novidade e envolve todos os níveis: públicos, federais e privados. Há um discurso constante sobre competitividade, custo da rede e a suposta concorrência desigual com cooperativas e fintechs. Mas, no fim, quem sofre é a população”, diz.

Bancos justificam fechamento; Bradesco fala em ‘adequação’

Procurados pela reportagem, Santander, Itaú e Banco do Brasil não responderam até o fechamento da matéria, mas o espaço segue aberto. O único retorno veio do Bradesco, que alegou passar por “adequações” no modelo de atendimento. Segundo o banco, 98% das operações já são feitas pelos canais digitais, e parte das agências está sendo unificada ou redimensionada. Clientes são direcionados a unidades próximas ou à rede Bradesco Expresso, correspondentes instalados no comércio e com horário ampliado.

A resposta, porém, não atende às críticas de quem vê na tendência um desmonte das estruturas presenciais de atendimento. Para o sindicato, essas transformações reduzem o acesso a serviços essenciais e ampliam a exclusão financeira de grupos vulneráveis.

Impacto nos trabalhadores e nas cidades

O fechamento de agências traz também consequências para os trabalhadores. Embora parte dos bancários seja realocada em unidades próximas – como ocorreu na região central de Santo André, segundo o sindicato – nem todos conseguem absorção. “Se uma agência fecha e tem dois gerentes, por exemplo, nem sempre há espaço para manter todos os cargos na agência que recebe esses funcionários”, explica Vitti.

Já do ponto de vista das cidades, perder agências significa reduzir o fluxo de serviços, o acesso ao crédito e até a circulação de dinheiro. Em regiões mais periféricas, a situação é ainda pior, uma vez que tal cenário pode comprometer pequenos comércios e aumentar a dependência de meios digitais que nem sempre são acessíveis ou estáveis.

Olhar para o futuro

Com o avanço dos fechamentos das unidades físicas, a pergunta é como fica o futuro de quem depende de agências físicas? Em resposta, o sindicato reacende o debate sobre a regulamentação do sistema financeiro. Vitti cita o artigo 192 da Constituição que estabelece que bancos têm função social – algo que, segundo ele, não tem sido considerado dentro das decisões de encerrar agências. “Os bancos são concessões públicas. Não podem operar só com lógica de lucro. Temos propostas para regulamentar isso, mas falta força política para avançar no Congresso”, afirma.

Apesar de reconhecer que a transformação digital é inevitável, Vitti rejeita a ideia de um futuro totalmente virtual, sobretudo em um país desigual como o Brasil. A presença física, ainda que menor, continua sendo essencial para garantir que ninguém fique para trás. “O banco não vai virar um dinossauro extinto”, brinca. “Nenhum sistema pode ser só digital. O atendimento presencial precisa existir e vai continuar, mesmo com toda essa pressão por tecnologia que substitui o trabalho humano, funções e, muitas vezes, o próprio papel das agências”, completa.

(Foto: Reprodução/Google Maps)

Leave a comment

Leave a comment

0.0/5